segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sob as estrelas

Enfim, depois dos 70 e tantos quilômetros, conforme o homem no posto de Feira de Santana havia indicado, encontramos o tal posto Paraguaçu e a sinalização que mostrava que, depois dele, teríamos que virar à direita para pegar a estrada em direção à Chapada Diamantina. Com um suspiro de alívio resolvemos parar ali mesmo, porque só então, com o caminho certo a frente, percebemos que estávamos com muita fome.

Entramos no restaurante do posto e foi aquela sensação: éramos as únicas mulheres do pedaço, o restante eram caminhoneiros. Demos uma olhada nos salgados do balcão e ficamos com certo receio de comer um deles, decidindo pedir misto e queijo quente. Foi aí que vimos como fomos preconceituosas: o chapeiro da lanchonete colocou luvas descartáveis pra pegar os pãezinhos com os quais fez nossos sanduíches, o que mostrava que havia uma preocupação com a higiene, ao menos aparentemente. Estava tudo delicioso, tanto que repetimos a dose.

Bem alimentadas, pegamos a nova estrada e foi mais uma surpresa: ela era ótima! Asfalto novinho, olhos de gato brancos entre nossa pista e o acostamento, amarelos entre nossa pista e a oposta e vermelhos entre a pista oposta e seu acostamento. Nunca tínhamos visto esse tipo de sinalização, nem nas estradas paulistas. Não tinha praticamente mais ninguém além de nós, só a lua e as estrelas. De vez em quando aparecia um caminhão, saído sabe-se lá de onde, mas era fácil ultrapassar porque não vinha luz nenhuma da outra pista. Seguimos a 100km por hora até Itaberaba, quando a estrada mudou completamente, cheia de buracos e mal sinalizada. 

Pra garantir que estávamos no caminho certo, a Natália e a Rejane iam olhando no mapa que tínhamos impresso, ainda em São Paulo, quais as cidades pelas quais deveríamos passar. Eu ia marcando a quilometragem no hodômetro e confirmando conforme as placas apareciam. Alternando entre trechos com asfalto perfeito e outros nem tanto, chegamos até o acesso à cidade de Palmeiras, de onde sai o caminho para a Vila do Capão.

A cidade é bem bonitinha, pequena, com aquelas casas sem recuo, com portas e janelas dando diretamente para a calçada. A rodoviária é uma espécie de balcão à frente de uma saleta, com telhado avançado por cima, onde o ônibus pro Capão e pra Lençois param em dias determinados. Aproveitamos pra perguntar o caminho e a indicação foi tranquila: seguir em frente e entrar à esquerda em todas as bifurcações. Além disso, logo na primeira pracinha havia uma placa sinalizando direitinho por onde deveríamos seguir. 

Confirmamos mais uma vez o caminho com uns jovens sentados nas grades de uma pontezinha e continuamos em frente. Por alguns momentos acreditamos que aquele calçamento de pedras iria até o Capão, mas rapidamente a realidade se impôs: estrada de terra batida, bastante larga, mas cheia de "costelas de vaca", valas e outros detalhes que nos fizeram considerá-la uma pirambeira. Vale lembrar que já eram 11 horas da noite e não víamos a hora de chegar na pousada.

Já estávamos tão cansadas que começou a sessão bobagem: a Rejane comentou que se o Bin Laden tivesse se escondido na região, não teria sido capturado e morto pelos americanos. Aproveitando a ideia, a Natália afirmou que a qualquer momento poderíamos dar de cara com o Elvis ou o Michael Jackson, pois se todos dizem que eles não morreram, e sim se esconderam do mundo, que melhor lugar do que aquele? Ela aproveitou pra se perguntar como o Atílio havia encontrado um lugar daqueles pra ir morar, e na sequência comecei a pensar nas questões práticas: como fazer a mudança? Transportar a geladeira, por exemplo, com todas aquelas irregularidades da estrada, ia fazer com que o motor da dita cuja chegasse em petição de miséria ao seu destino.

Finalmente começaram a aparecer algumas construções esparsas, de casas e pousadas, e no final de uma descida, uma ponte e calçamento, indicando que havíamos chegado a Caeté-Açu. Seguimos pela rua principal, que junto com três ou quatro transversais são a cidade inteira, olhando as placas das várias casas. Havia de pousadas, de restaurantes, de lojas de artesanato, mel e licores, mas nenhuma delas era da Vila Esperança, onde havíamos feito a reserva. Chegamos ao final da rua e voltamos, resolvendo parar pra perguntar a um grupo de jovens, os únicos ainda na rua naquele horário (era quase meia-noite). Eles pareciam saídos diretamente dos anos 70, com cabelos compridos, casacos de estilo militar e aquela fala lenta de quem medita muito ou consome certa erva natural.

Um deles foi super prestativo e ensinou: "Vocês seguem por onde vieram, até acabar o calçamento. Atravessam a ponte entram na primeira à direita. Logo à sua direita já é a entrada da pousada. Mas atenção, tem que ir até acabar o calçamento e passar a ponte. Passa a ponte, tá? Depois que acaba o calçamento."

Antes que ele repetisse a indicação mais uma vez, agradecemos e fizemos o caminho indicado, passando a ponte e o fim do calçamento, e chegando no acesso à pousada. A Renata, que é a gerente, ainda estava acordada nos esperando, e pedimos mil desculpas pelo adiantado da hora. Ela foi super simpática, ainda nos deixou ligar pro Atílio, que havia pedido que avisássemos quando chegássemos, mas o telefone tocou até cair a ligação (claro, a Cinthia e ele estavam dormindo). E, obviamente, assim que desistimos e começamos a levar nossas malas pro quarto, ele ligou de volta, porque não havia conseguido despertar e chegar até o aparelho da primeira vez. Combinamos de ir à casa dele após o café da manhã, no dia seguinte, e fomos curtir os quartos maravilhosos da Pousada Vila Esperança. 


Quarto grande com cama box, mosquiteiro formando praticamente um dossel, televisão (que a gente praticamente nem usou), frigobar, um lavatório externo ao banheiro...


















... e um banheiro com um chuveiro ótimo, onde tomamos aquele banho para tirar boa parte do cansaço da viagem e nos preparamos para uma noite de sono reparadora.

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